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Digitalização, desmaterialização e desintermediação

2020-01-10 Vida Económica

O processo de digitalização e desmaterialização, das empresas mas também das sociedades, já começou. E é um ponto sem retorno, dizem. Agora, surge um novo desafio mundial: lidar com a desintermediação, onde confiamos mais na avaliação de um utilizador-cidadão do que de um especialista.

Facto: vivemos e sobrevivemos a três revoluções industriais. Mas, mais que sobrevivermos, prosperámos. Já há duzentos anos se dizia que as máquinas iam substituir as pessoas. Apesar de, realmente, cada vez mais as máquinas substituírem tarefas antes destinadas aos humanos, todos os indicadores sociais e económicos melhoraram com estas revoluções industriais, desde a educação, a riqueza, a saúde, a democracia, a literacia, a mortalidade infantil, a vacinação.«Não houve um destes indicadores que não tenha melhorado significativamente após cada um destes processos transformadores. Processos dolorosos mas que trouxeram o planeta para um nível de bem-estar e prosperidade sem precedentes na história da humanidade», explicou Rui Coutinho, director executivo do Center for Business Innovation da Porto Business School numa conferência promovida pela Unicâmbio.

Hoje, e numa altura em que se defende que estamos na presença da quarta revolução industrial, vivemos um momento que tem tanto de desafiador, como de inquietante, onde o digital nos traz um conjunto de novas possibilidades e onde o mundo se torna interconectado, interdependente e combinatório, com as principais plataformas tecnológicas a acelerarem cenários mais ou menos distópicos.

«Em 2018, alegadamente, nasceram as primeiras crianças a partir de manipulações genéticas. Há um conjunto de transformações que estão a ser aceleradas e se há algo que caracteriza este momento é essa velocidade, essa aceleração e rapidez com que as coisas acontecem». Aliás, Rui Coutinho acredita que na actualidade não há bem mais perecível do que o próprio conhecimento. «Isso exige de nós enquanto pessoas, enquanto organizações, enquanto sociedade, algo novo e diferente».

O factor crescimento
Nesta nova sociedade é preciso pensar em crescimento. Nomeadamente o económico, já que é ele que tem gerado a prosperidade, a riqueza, o bem-estar e todos os progressos civilizacionais. Mas este crescimento, expõe o professor, não poder ser a qualquer custo: «Precisamos de que seja mais inteligente».

São vários os desafios que Rui Coutinho defende para o tal crescimento inteligente. O primeiro é a demografia. «Somos um dos países com maior índice de envelhecimento da Europa. No mundo ocidental, é verdade que olhamos para a demografia do lado do envelhecimento e pelo lado da fraca natalidade, mas a tendência não é essa. O mundo está, do ponto de vista populacional, a crescer de forma imparável».

Fomos ver as projecções das Nações Unidas. Em 2030, seremos 8,5 biliões de pessoas, mas em 2100 podemos vir a ser 11,2 biliões. Um crescimento exponencial que é saudável no sentido de sabermos que a nossa espécie se está a reproduzir, mas preocupante porque «não sabemos se cabemos todos e se há recursos para acolher toda a gente», lembra Rui Coutinho.

Para mais, a distribuição da população não vai ser sequer uniforme, havendo um movimento de concentração demográfica em metrópoles. Em 2030, 60% da população mundial estará a viver em macro cidades e 80% dos 11,2 biliões em 2100 estarão a viver nessas grandes metrópoles. Outro dado relevante é que haverá um novo equilíbrio geopolítico e geoestratégico. As pessoas vão estar concentradas eminentemente em dois espaços geográficos: na mais ou menos óbvia Ásia e na menos esperada África. «Atentem para o crescimento populacional passado, presente e projectado para, por exemplo, a Nigéria». Esta mutação demográfica do nosso planeta, que cresce abundantemente em determinadas áreas consideradas emergentes e que decresce, de forma preocupante, em países desenvolvidos, cria novos desafios.

Relativamente ao desafio da demografia, Sobrinho Simões, conceituado médico patologista e investigador português, assume-se não como um homem dos ‘D’ mas antes dos ‘C’, no sentido de curar, controlar e cuidar. Mas acrescenta um novo ‘D’ para acrescentar à digitalização, desmaterialização e desintermediação: o da desigualdade. «Em termos de desigualdade, não sabemos se em África as pessoas vão sobreviver. Mas na Ásia, vão. Onde vamos caber todos se estamos a tratar cada vez mais a saúde das pessoas e a prolongar o tempo médio de vida?». Com o seu natural e reconhecido humor, Sobrinho Simões deu o exemplo do Japão, onde «simplesmente as pessoas não morrem» derivando muitas vezes em questões como insegurança e solidão. «Em algumas zonas do mundo estamos a ficar velhos, a viver mais e sem crianças, o que é preocupante».

Por outro lado, o patologista, que garante, nomeadamente em Portugal, que a saúde vai ser cada vez melhor – «e não estou a falar de soluções para tipos muito ricos mas de acesso generalizado à população» – há um aumento de doenças como obesidade, diabetes tipo II, inflamações crónicas… «O cancro não vai ser um problema, as pessoas vão morrer de velhas, de insuficiência cardíaca, com demência, vai ficar caríssimo à sociedade. Não vão morrer de cancro, porque vamos curar as doenças, não vamos é curar a velhice».

Para o investigador, estamos a esgotar os aspectos físicos, químicos e biológicos. «O meu maior problema como médico é a falta de atenção. A nova geração não tem atenção, perderam a empatia. Não só esgotámos a sustentabilidade físico-química como rebentámos com a atenção e a empatia». Assim, para Sobrinho Simões, a única escapatória é a educação o mais eficiente e o mais cedo possível».

Sustentabilidade e descarbonização
Tudo isto leva a um segundo desafio: o desenvolvimento sustentável e a descarbonização. «Uma coisa está ligada à outra. Sabemos que os indicadores de emissões de CO2 estão intimamente correlacionados com o crescimento económico. A equação que importa resolver é como é que vamos continuar a aumentar o PIB, como vamos conseguimos ter crescimento económico mundial e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões já que sabemos que essas emissões estão a contribuir decisivamente para o aquecimento global», defende Rui Coutinho.

Há, por isso, que pensar o crescimento inteligente, nomeadamente do ponto de vista das empresas, com impacto positivo nas pessoas, no planeta e também nos lucros resultados. «Temos de começar a pensar no valor desta forma e não apenas através de dividendos accionistas», reflectiu o professor.

Digitalização e desintermediação
É claro que digitalização teria de fazer parte de todo este processo. Mas, para este professor, tem de ser pensada para além da buzzword ‘transformação digital’ que ouvimos em todo o lado. «Nesta equação, o mais importante é a palavra transformação. O digital acontece, a tecnologia está a ser desenvolvida, há uma economia florescente a esse nível mas o que nós fazemos com o digital é que vai ser relevante». Importa, por isso, salienta o executivo, encarar estes fenómenos e perceber que eles geram outros fenómenos conexos, como o da desintermediação, que espoleta novos desafios. «Hoje já não necessitamos de intermediários para comprar seja o que for. Há marketplaces que nos permitem comprar directamente o que precisamos a outro cidadão. A forma como obtemos informação é igualmente preocupante. Usamos as redes sociais que não têm informação mediada ou filtrada, com fenómenos como as ‘fake news’ a nascerem. Estamos literalmente a desintermediar a forma como obtemos a informação e como pagamos essa informação», diz Rui Coutinho.

As criptomeadas e o fenómeno da desintermediação no sistema financeiro – com as fintech e os novos players a funcionarem como elemento disruptores deste sector tão tradicional – foi ainda mencionado pelo director executivo. «Esta desintermediação tem a sua origem na desconfiança. Cada vez confiamos menos».

Não vai haver emprego?
Que impacto terá então a digitalização no emprego? Vai deixar de existir? A evidência é ao contrário, até deverá aumentar, diz Patrícia Teixeira Lopes, doutora em ciências empresariais e vice dean da Porto Business School. «Após estas transformações, a história prova que o emprego aumenta. O que vai acontecer, com alguma certeza, é uma maior pressão sobre os salários, porque as máquinas vão substituir o trabalho das pessoas. Se nada for feito, vai haver um aumento do gap salarial e uma redução da coesão, algo que nos preocupa muito. Esta desigualdade do rendimento é um risco grande».

A especialista diz que quem está ligado aos temas da automação e da robótica e desenvolve os modelos de negócio nesse âmbito terá mais condições para a apropriação de riqueza do que os outros que poderão ficar fora desta evolução. «É normal que tenha de haver algumas políticas de apoio a esta transição e transformação».

Patrícia Teixeira Lopes, no que diz respeito à necessidade de adaptar as pessoas, acredita que vá haver um problema de talento e falta de qualificações, que de resto já se tem vindo a sentir, nomeadamente em Portugal, no mercado em determinadas áreas. «Vai ter de haver um trabalho de reskilling, de transformação de competências para colmatar esta escassez». A professora desenvolve a ideia da necessidade de ir buscar talento fora das áreas mais ‘directas’. «Vamos passar a ir buscar talento com backgrounds diferentes, desde as ciências às humanidades. Vai ter de haver mais diversidade nas equipas, geracional e étnica. Vamos ter de aproveitar todo o talento porque vai ser escasso».

Assim, a nova cultura organizacional estará sustentada em novas formas de trabalho. «Vamos passar de uma cultura de silos, que trabalha por áreas funcionais, para organizações muito mais interdisciplinares, colaborativas, com menos hierarquia, mais ágeis, não só individualmente mas em termos organizacionais». Da mesma forma, no entender de Patrícia Teixeira Lopes a Inteligência Artificial vai estar no centro de tudo, e até na base da decisão, «mas vai ser cada vez mais determinante a componente humana. As máquinas estão aí mas os humanos vão ser eventualmente ainda mais relevantes neste novo mundo das máquinas e da robótica».

Fonte: Vida Económica, páginas 22 e 23, de 10 de janeiro de 2020.